Crónica de José Luís Peixoto: “O tempo aqui”

29/06/2015 Comentar

Há momentos a passar em todos os lugares onde estou. É assim com todos os que aceitam estar vivos, ventura e aventura, sorte que se sente em certas manhãs de abril ou, mesmo, quando se procura palavras que expliquem paradoxos.

Agora, está aqui uma pessoa com as minhas caraterísticas, mas eu estou bastante longe daqui, a aproveitar esta manhã de abril. Esta pessoa partilha todas as minhas caraterísticas fundamentais: aspeto, nome. Se disserem o meu nome, esta pessoa deixa de escrever estas palavras e, muito provavelmente, vira-se na direção de onde a chamarem. Tudo isto é uma probabilidade porque, aqui, sozinha, está apenas esta pessoa. Aqui, não estou sequer eu próprio, porque eu estou perto do rio, a respirar.

Hoje, separámo-nos cedo. Logo depois de acordar, quando abri os estores e esta luz ocupou toda a janela, saí para a rua, levando o meu sorriso, e esta pessoa ficou aqui, a preparar-se para escrever e, depois, a escrever. Esta pessoa tem alguma consciência daquilo que é estar perto do rio, analisar o brilho do Tejo, medi-lo por instantes e deixá-lo escapar para sempre, mas não sabe, como eu, aquilo que é estar agora a sentir os pequenos pontos de água que se libertam do rio, que se misturam com o ar e que, com o sol, pousam sobre a pele do meu rosto.

Crónica completa no site Espiral do Tempo


Crónica originalmente publicada no número 50 da Espiral do Tempo.